quinta-feira, 20 de Agosto de 2009

'Ferrugem'


Algo
Lhe roía as entranhas
Lentamente…
Camada
após
camada,
Pedaço
Após
Pedaço.
Entupindo,
Rebentando,
Quebrando…

E essa torneira

Já não sabia chorar.


Ilustração de Bruno Clemente e texto de Leonor Figueiredo

quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Auto-Retrato





Acordara naquela noite com um arrepio inconstante e frio no meio do calor que se fazia sentir.

Incapacidade de autodefinição, saudade, sufoco, vazio.

Pegando numa das muitas folhas ali caídas ao pé da cama, preparava-se para escrever algo, quando se apercebeu da ridicularidade de continuar a descarregar os seus delírios numa escrita em terceira pessoa.

Foi então que pousei a caneta, me virei para o outro lado e, deitando a cabeça, desisti de ser quem quer que fosse naquele momento.








Ilustração de Bruno Clemente e texto de Leonor Figueiredo

quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

Viver



Mas e se…?
Sim, acho que sim…
Penso que não tem problema nenhum…

(Espere um bocadinho, por favor)

Vira aí à esquerda!

Sim, sim, desculpe…
Posso-lhe falar mais logo, se não se importa?
Agora não me dá muito jeito, estou a meio de uma viagem…
Sim.
Sim.
Sim.
Pronto, então é isso.
Muito boa tarde, até logo.
Com licença.




























Ilustração de Bruno Clemente e texto de Leonor Figueiredo

quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008















Como um lampejo.

Aquela bola de fogo
dominava sob o céu.

Num mar de chamas vivas

Rapidamente desceu
para as profundezas da terra.

A noite engoliu-a


Era minha

Era tua

...

Mas não se perdeu.






Fotografia de Leonor Figueiredo, Texto de Bruno Clemente

quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008




Apanha
do chão
Deita
no bolso


Esta é a primeira parte de uma história




que não tem segunda parte.

Falo apenas de um coleccionador de clipes.












Ilustração de Bruno Clemente e texto de Leonor Figueiredo

quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

Tempus




O tempo passa, transforma as coisas…
Num silêncio admiravelmente dominador,
Que só a elas pertence.

Molda novas formas, destrói umas,
Cria outras…

Com a mesma célere lentidão de sempre.

O Tempo.

Em si, nada é, nada contém, é vazio…

Desprovido de História ou Sentimento

É Nada


No entanto.
Ela é contentor do Tempo,
Criadora Dele…

Da mesma forma que a ferrugem se apodera teimosamente das suas entranhas,
Tal como o sol a si mesmo se consome.
Ela é o Tempo e o tempo é Ela,
fundem-se.


São o mesmo..



O Tempo.

O Universo…

..ao mesmo tempo...

(É-o.)








Fotografia de Leonor Figueiredo e Texto de Bruno Clemente


quinta-feira, 20 de Novembro de 2008



Foi então que a noite cobriu tudo de um manto inconfundivelmente brilhante, enquanto o som do farol começava a ecoar por aquele longo areal repleto de conchas, rochedos e recordações.










Ilustração de Bruno Clemente e texto de Leonor Figueiredo